Duplipensei; sentidos anafóricos permeiam-me, inatos, como uma seiva.
Rezarei ao nada.
Clamarei pelo desconhecido.
Amarei alguém alheio.
Chorarei por àqueles cujas vidas estão, enfim, vivas:
Pois, de fato, não há o que cantar aos que jazem em minha mente.
A arrogância será implacável; todos são pedras, afinal.
Um vivo, um morto e uma pendência.
Tão diferentes.
Tão proféticos na arte de semear o nada.
O primeiro declarou-se verdadeiramente apaixonado.
Enterrem-no.
Não saberias diferenciar entre amor e ódio.
A alma, o menor dos culpados, será massacrada.
Não sobrará nada, destarte.
Enfim, tratem de enterrá-lo ao longe, à mercê dos lírios, pois este não gerará proteção embrionária:
Porque, felizmente, não há sementes,
sem mentes.
Tragam-me o próximo.
O segundo declarou-se amante da vida.
Distraiam-no.
Não saberias diferenciar entre escravidão e liberdade.
O corpo, eterno mosteiro de idiotas, será lembrado.
Porém, se tentavas entender a mecânica da vida, perdeu-se entre às quimeras risíveis: Os outros.
Não perca tempo, perca a solidão.
Busque o conjunto,
converse comigo,
venha à minha casa,
eles dizem.
Meras distrações.
Meros espantalhos.
Não há amor, por mais insólito, nesses pérfidos pacotes de sangue e carne.
Momentos devem ser vividos.
Segundos, minutos e horas devem ser perdidos,
transformados em amor; o verdadeiro, não o repercutido pelos outros.
Os outros não entendem sobre o amor.
Os outros estão vivos em si,
presos em si,
mortos em si.
Só estão vivos, se assim declararem, em si.
Não há relatos, o último esvaiu-se há anos, sobre transmissão de conhecimento entre os outros.
Sabemos sobre fotografias, danças e gírias.
Nada real.
Tudo supérfluo.
Nada necessário.
Verdadeiros domadores de ignominiosas vidas.
Enfim, disponham-no as maiores distrações e regalias.
Tratem de deixá-lo pasmo com o tamanho da teletela.
Adornem-no com maquiagens e brilhos;
acabará esquecendo esse possível amor à vida.
Chamem o último.
O terceiro não se pronunciou.
Não consegue discernir se está morto ou vivo.
Essa é a pendência.
Terá que decidir:
Continuará vivo, enfiado em um limbo lustroso,
ou morto, simplesmente, desfrutando do ócio da não-vida?
Decida-se, ser agoniante.
Decida-se, ser ludibriado.
Tu és perda, estúpido.
Nem amas, nem lamentas.
Não buscas, nem descansas.
Tu és um displicente.
Escolha teu lado.
Rápido e claro.
Não há não-escolhas.
Não há calmarias.
Não há desvios.
Escolha.
Apegue-se a algo, rápido!
Tu és a certeza do erro.
Tu és correto.
Tu não tentas.
Não escolher é falhar.
Não falhe consigo, ser deplorável.
Se quiseres permanecer calado, será jogado ao hospício.
Não aceitaremos essa loucura.
Seu louco.
Seu pouco.
Por que me imitas?
Por que repetes o que eu faço?
Não entendo, como pode ser idêntico a mim?
Tu não és.
Tu és o não.
Tu és o Eu.
Tu és.
Tu não imitas.
Eu sou a imitação.
Sou, propriamente, você.
Sou Os outros.
Não sou.
Sou nada.
Sou cópia barata da mágoa herdada dos outros.
Sou consciência.
Sou displicência.
Sou lamento anafórico.
Sou insólito.
Sou reflexo.
Sou espelho
Do que
Eu
Não
Sou








