domingo, 16 de outubro de 2016

Aboletar.

mc
Animal farm, George O.


Revela-se em um átimo,
desiste.
O Torpor sobrepõe-se à vida.
Alquebrado, continuo a não continuar.
Meu litígio, ou mente, nada mais contribui para com meu corpo;
tornou-se um apetrecho pouco funcional,
ou um sistema ceráceo, aos frangalhos,  sem remorso de estar ali.
Pena que não posso parar de pensar.
Invejo àqueles que conseguem tal portento;
imagina só, viver sem precisar pensar.
Viveria tão bem;
tão sóbrio de nada,
tão feliz com tudo,
contudo,
não haveria tristeza;
quiçá, remorso.
Haveriam flores, sorrisos e fotos.
Um completo estado nirvânico, com riquezas e glamour.
Tão sorrateiramente amiúde –
Criado, preparado, moldado e largado –,
todos tão ignominiosamente iguais.
Todos felizes, cantarolando, criando seus belos e sorridentes filhos.
Um verdadeiro amor fati às avessas.
Claramente, pincelado por De Masi, no completo e belo ócio.
Sem as durezas estupidas de Hamlet: Um ser doentio, simplório, possivelmente comunista, que, em seu ápice ao avesso, achou que era astuto o suficiente para questionar-se sobre o
Ser.
Coitado.
Possivelmente se alegraria se conhecesse a modernidade;
perderia menos tempo com coisas fúteis como essa.
Conheceria as milhões de possibilidades virtuais.
Cresceria com uma startup de sucesso.
Aprenderia a criar, preparar, moldar e largar.
Seria um completo igual.                                            
Feliz, como eles, em frente às teletelas; sem efemeridades, sem filosofia (Isso nunca foi necessário, sinceramente).
Completos camaradas,
enantiomericamente dispostos em filas iguais,
ruas iguais,
saídas iguais,
baladas iguais,
igualmente feliz,
diferentemente nocivo.
Sem indivíduos esdrúxulos o suficiente para encher-me com desvios, perdas de lucro, 
desvarios mnemônicos.
Continuarão seguros.
Ante àquilo, não há perdas.
Não há dor.
Não há diferenças. 
Diferença dói.
Não reconheço diferenças.
Só há uma crença correta: a igualdade.
Não a igualdade completa, lógico.
Porque alguns, por reterem mais, são mais iguais.
Mais completos.
Mais iguais ao meu desejo.
Não há motivos para sopesar ideias.
São todos iguais.
Alguns mais,
outros nem tanto.
Queria viver assim,
igualmente sorrateiro.
Sem pensar, questionar e, fora isso, sopesar.
Tão feliz.
Tão criado,
preparado,
moldado 
e largado.
Estupidamente pernicioso, porém, não veria nada mais que o igual.
O único problema,
em que decerto me encaixo,
é que não sou tão aprumado.
Só não tenho eixo,
meio 
ou espaço.
Perdi a forma e a forma.
Não me encaixo na remessa; sou jogado, não largado.
Questionado se questiono o inquestionável.
Esfalfando por onde passo;
mesmo sem espaço;
um simples lapso,
de diferença à ofensa.
Pena que já estou me esvaindo.
Completamente sem espaço.
Nem lapso de inteligência,
isso quase não há mais.
A meada já está perdida há tempos.
Pois o igual,
além de astuto,
perdeu forma;
virou tudo.


quinta-feira, 13 de outubro de 2016

Erosfilia (III)

The Lovers. Rene Magritte, 1928.

Se há, enfim, um significativo começo,
não serei eu a declamá-lo.
Tua inescrutável insensatez, por um simples ser,
que nada és, conquanto não há o que ser,
sempre será triste:
Demasiada esqualidez para alguém assim,
desconexamente alheia de minha paixão, a arrefecer
todo colérico sentimento.
Tu não coexiste, habitas ou vives aqui.
Tu és o cúmulo de minha constante letargia.
Refiro-te, pesaroso, mas continuo afável à tua amiúde
arrogância; quem, mesmo em seu ápice grego de eudaimonia,
cederia esse aturdido tempo a amores tão lamuriosos; homiziada, insólita, Demiurga denominada,
entrementes, como paixão.
Desculpe, ser.
Tu perderas tua primazia.
Que reines noutro inferno, noutra mente... não há diferença.
Continue a labutar-te em lágrimas.
Tu, que já não vives mais nessa súcia chamada amor, não sentes que o desejo, por mais
enervante, tornou-se vago,
tão inóspito, que jamais fora reencontrado entre minhas, estranhas, entranhas amargas.
Tu perdestes teu tudo, tornou um ser-para-o-nada,
e, incautamente, não restou nem a mais ignóbil das expressões:
Tu és tão vazia, que não há necessidade de, por fim, transformar toda esta baboseira
em uma Erosfilia; tu não és digna de tal portento.
Perdão, ser-ímpio.
Não és mais meu Telos.
Tu amainaste todo e qualquer desejo,
A agrura a arrastar, contudo, perdeu a razão.
Não há mais, mesmo com todo o meu elucubrar, uma razão para chorar.
Teu olhar, beatífico como um todo, perdeu o  brilho;
esvaziou-se por inteiro... Como os olmos, sem o leucoma no olhar de
um pensador displicente, perdem o sentido de sua existência.
Perdão, ser, demasiado nada, sendo tu que não há para ser.
Não há mais nada para ser, tu já perderas tua chance de tentar ser algo.
Negaste, empáfia, tu.
Negaras por si,
ou por algo desconhecido.
Viverás ao mais baixo nível: Sem amor.
Estás marcada.
Seu coração, se, por fim, existir, fugirás em um átimo.
Cansado.
Pobre receptáculo sem corpo.
És o envolto da paixão, mas sem um ser, ser-para-a-melancolia, não és nada.
Perdão, coração,
por tratar-te com tamanha revelia.
Não sou possuidor de infinita solidão, a morte, oneroso ser, não chegou à casa.
Enfim, ser-fútil.
Tu não mereces atenção,
nem mesmo minhas árduas palavras:
Promovendo uma aquiescência na mixórdia chamada mente.
Ignaras.
Centelhas.
Sem ordem, ante à vida, diante do fato; não há razões. 
Perdidas nas mais tépidas alucinações.
São meras palavras largadas,
que mal interpretadas,
podem até parecer,
que no fim de toda essa contrafação,
eu, alheio ser, poderia  tomar a simples conclusão:
Amo-te, só não sei quem tu és.

quarta-feira, 12 de outubro de 2016

Fibonacci

Van gogh, Tournesols


O quê?
Não me julgue com seus olhos castanhos
Sou racional, insensível
Quero ter boas escolhas
Escolhas as quais eu não me arrependa

Se te questionas como posso ser racional
Não sou, só finjo
Sou humano
Vivo porque tenho sentimentos
Sinto o vento em meu rosto
Meu coração a bater
Sinto o que não deveria sentir; o amor

A antítese à racionalidade
Mas sem ele não sou nada
Pois, por que viveria?
Sem o amor
Teria motivos para desistir dessa vida
Acabando com ela em um rápido e delicado suicídio

Mas, paradoxalmente, amo a razão
Ela é a tentativa de concatenar meus pensamentos
Pulsam sentimentos
Brotam idéias
Criam hipóteses

Tento ser racional porque desejo me entender
Sem minha racionalidade
Seria apenas mais um turbilhão
Desajeitado, impulsivo, pérfido
Que não consegue distiguir o quê é real
Do que é fantasia

Não sou insensível, senhora
Estou apenas tentando não naufragar
Este mar dos sentimentos é turbulento
Cila e caríbdis andam a nos espreitar
E eu não pretendo afundar tão cedo