quinta-feira, 13 de outubro de 2016

Erosfilia (III)

The Lovers. Rene Magritte, 1928.

Se há, enfim, um significativo começo,
não serei eu a declamá-lo.
Tua inescrutável insensatez, por um simples ser,
que nada és, conquanto não há o que ser,
sempre será triste:
Demasiada esqualidez para alguém assim,
desconexamente alheia de minha paixão, a arrefecer
todo colérico sentimento.
Tu não coexiste, habitas ou vives aqui.
Tu és o cúmulo de minha constante letargia.
Refiro-te, pesaroso, mas continuo afável à tua amiúde
arrogância; quem, mesmo em seu ápice grego de eudaimonia,
cederia esse aturdido tempo a amores tão lamuriosos; homiziada, insólita, Demiurga denominada,
entrementes, como paixão.
Desculpe, ser.
Tu perderas tua primazia.
Que reines noutro inferno, noutra mente... não há diferença.
Continue a labutar-te em lágrimas.
Tu, que já não vives mais nessa súcia chamada amor, não sentes que o desejo, por mais
enervante, tornou-se vago,
tão inóspito, que jamais fora reencontrado entre minhas, estranhas, entranhas amargas.
Tu perdestes teu tudo, tornou um ser-para-o-nada,
e, incautamente, não restou nem a mais ignóbil das expressões:
Tu és tão vazia, que não há necessidade de, por fim, transformar toda esta baboseira
em uma Erosfilia; tu não és digna de tal portento.
Perdão, ser-ímpio.
Não és mais meu Telos.
Tu amainaste todo e qualquer desejo,
A agrura a arrastar, contudo, perdeu a razão.
Não há mais, mesmo com todo o meu elucubrar, uma razão para chorar.
Teu olhar, beatífico como um todo, perdeu o  brilho;
esvaziou-se por inteiro... Como os olmos, sem o leucoma no olhar de
um pensador displicente, perdem o sentido de sua existência.
Perdão, ser, demasiado nada, sendo tu que não há para ser.
Não há mais nada para ser, tu já perderas tua chance de tentar ser algo.
Negaste, empáfia, tu.
Negaras por si,
ou por algo desconhecido.
Viverás ao mais baixo nível: Sem amor.
Estás marcada.
Seu coração, se, por fim, existir, fugirás em um átimo.
Cansado.
Pobre receptáculo sem corpo.
És o envolto da paixão, mas sem um ser, ser-para-a-melancolia, não és nada.
Perdão, coração,
por tratar-te com tamanha revelia.
Não sou possuidor de infinita solidão, a morte, oneroso ser, não chegou à casa.
Enfim, ser-fútil.
Tu não mereces atenção,
nem mesmo minhas árduas palavras:
Promovendo uma aquiescência na mixórdia chamada mente.
Ignaras.
Centelhas.
Sem ordem, ante à vida, diante do fato; não há razões. 
Perdidas nas mais tépidas alucinações.
São meras palavras largadas,
que mal interpretadas,
podem até parecer,
que no fim de toda essa contrafação,
eu, alheio ser, poderia  tomar a simples conclusão:
Amo-te, só não sei quem tu és.

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