terça-feira, 27 de setembro de 2016

Viver?

                                 Brick People by Donna Dobberfuhl
Nascem grandes,
Cabeças cheias de sonhos.
Crescem vazios,
Meras engrenagens numa máquina.

“Sonhar não te leva a lugar algum”,
Dizem aqueles cujos sonhos lhes foram arrancados.
“Se quiser algo, lute por isso”,
Dizem aqueles que controlam as oportunidades.

Não estude, decore.
Não aprenda, reproduza.
Viver não dá dinheiro.
Viva para conseguir dinheiro.

Viva para ser.
O que? Não faz diferença.
Mas só importa se for lucrativo.
Se não for, é burrice.

“Mas e se for meu sonho?”
Ninguém vive de sonhos.
Sonhar não dá dinheiro.
Arruma um emprego, ingênuo.

E assim, nos ensinam.
Somos criados dessa forma.
Moldados desde a infância
Para nos tornarmos o melhor dos tijolos no muro.

Um universo de sonhos,
De esperanças,
De vidas.
Tudo comprimido em um mísero bloco desprezível.

Só mais um dentre bilhões.
Quem vai importar-se com ele?
Quem vai protegê-lo?
Quem vai amá-lo?

Talvez haja outra forma.
Talvez isso não seja definitivo.
Mas quem vai arriscar o diferente?
Quem vai abrir mão de seu lugar no muro?

“Eu quero viver”,
Diz o refugiado,
Diz o pobre,
Diz o empresário,
Diz a mulher,
Diz o ator,
Diz o filósofo,
Diz o político,
Diz o criminoso,
Diz o pai,
Diz o filho,
Diz o moribundo.
E todos dizem:

“Eu só quero viver”

sábado, 24 de setembro de 2016

Erosfilia (II)


René Magritte, 1928, The Lovers.
René Magritte, 1928, The Lovers.
Displicência, talvez.
Amargura. Rancor?
ah, amor, não retornes assim.
Pare com essas ideias.
Meu clangor metafórico não suporta
tua simples existência.
teu olhar inescrutável rebela-se, enfim,
alheio.
Não há eu.
Não há nós.
Não há.
Haja, talvez, um simples desvario
amedrontado pela centelha que tu és.
Não há, nem haverá.
Permanecerás assim, 
no ócio da paixão.
Não notas?
Tu és mais.
Pouco.
Chega.
Tu és abstrata.
Não há.
Talvez seja estultícia minha.
Talvez, entretanto, haja algo no 
último lapso mnemônico que tu me
destes, ou darás, não sei.
Talvez, a mais empáfia das ideias, seja, por fim,
amor.
Um mero sentimento vital.
Um simples conceito extraordinário.
Por favor, termine isto.
Tire-me desta narcose simbólica.
Livrai-me desta melancolia
exacerbada.
Por mais impoluto, não mereço tal peso.
Ser, demasiada potência, sem nada ser.
Tu és o quê?
Tu és nada, sendo tudo.
Tu és tudo, sendo tão pouco.
Chega
Acabe com esse esdrúxulo 
momento, 
destrua cada resquício de
paixão.
Desmorone,
Recicle,
não sou nada,
tu já dissestes 
Por que, infernos, tu me almejas, enfim?
Desista,
não há.
Não vejo; não sou cego, só sinto.
Sinto demais.
Sinto por isso,
por aquilo,
por nada.
Sinto por não te ter.
Sinto por não haver o que se ver.
Esse ardor colérico não irá passar.
Desculpe, amor...
Uma mente solitária não brilha à luz do mundo.
Não há espaço, beira, momento, paixão.
Não há, emoção, vida, morte, só solidão.
Não há eira, centelha, amor ou sermão.
Jaz, alheio, um abrigo da mente,
buscando, piamente, 
tua simples visão.
Esperando, confuso, uma declamação
que, decerto, não passa de uma
mera ilusão...
pois o poeta solitário,
vivo ou morto,
nunca há de falar;
há de sentir;
há de chorar;
remoer-se-à por amores pérfidos,
cantados ao vento,
jogados ao tempo,
largados por meros corpos poéticos,
abertos à incumbência romântica 
das prosas.
Cansei de velhas ideias,
quero o desejo,
quero desejar-te.
Desculpe, amor. - repito
Poetas solitários,
vivos ou mortos,
sempre a espera alheia de mais um
amor perdido,
para, enfim, perder-se
incompreendido.
Mas calma,
não se desespere. 
Note que a constante só cresce
quanto mais tu se esquece
que o amor é para poucos.
Coisa para loucos:
para bobos, como nós.
Distração ínfima de uma vida efêmera.
Momento dividido, entorpece os sentidos
e toma como refém,
um coração, sem desdém,
pois amor, 
além de pouco recitado,
é coisa rara,
para poetas 
solitários.