Displicência, talvez.
René Magritte, 1928, The Lovers.
Amargura. Rancor?
ah, amor, não retornes assim.
Pare com essas ideias.
Meu clangor metafórico não suporta
tua simples existência.
teu olhar inescrutável rebela-se, enfim,
alheio.
Não há eu.
Não há nós.
Não há.
Haja, talvez, um simples desvario
amedrontado pela centelha que tu és.
Não há, nem haverá.
Permanecerás assim,
no ócio da paixão.
Não notas?
Tu és mais.
Pouco.
Chega.
Tu és abstrata.
Não há.
Talvez seja estultícia minha.
Talvez, entretanto, haja algo no
último lapso mnemônico que tu me
destes, ou darás, não sei.
Talvez, a mais empáfia das ideias, seja, por fim,
amor.
Um mero sentimento vital.
Um simples conceito extraordinário.
Por favor, termine isto.
Tire-me desta narcose simbólica.
Livrai-me desta melancolia
exacerbada.
Por mais impoluto, não mereço tal peso.
Ser, demasiada potência, sem nada ser.
Tu és o quê?
Tu és nada, sendo tudo.
Tu és tudo, sendo tão pouco.
Chega
Acabe com esse esdrúxulo
momento,
destrua cada resquício de
paixão.
Desmorone,
Recicle,
não sou nada,
tu já dissestes
Por que, infernos, tu me almejas, enfim?
Desista,
não há.
Não vejo; não sou cego, só sinto.
Sinto demais.
Sinto por isso,
por aquilo,
por nada.
Sinto por não te ter.
Sinto por não haver o que se ver.
Esse ardor colérico não irá passar.
Desculpe, amor...
Uma mente solitária não brilha à luz do mundo.
Não há espaço, beira, momento, paixão.
Não há, emoção, vida, morte, só solidão.
Não há eira, centelha, amor ou sermão.
Jaz, alheio, um abrigo da mente,
buscando, piamente,
tua simples visão.
Esperando, confuso, uma declamação
que, decerto, não passa de uma
mera ilusão...
pois o poeta solitário,
vivo ou morto,
nunca há de falar;
há de sentir;
há de chorar;
remoer-se-à por amores pérfidos,
cantados ao vento,
jogados ao tempo,
largados por meros corpos poéticos,
abertos à incumbência romântica
das prosas.
Cansei de velhas ideias,
quero o desejo,
quero desejar-te.
Desculpe, amor. - repito
Poetas solitários,
vivos ou mortos,
sempre a espera alheia de mais um
amor perdido,
para, enfim, perder-se
incompreendido.
Mas calma,
não se desespere.
Note que a constante só cresce
quanto mais tu se esquece
que o amor é para poucos.
Coisa para loucos:
para bobos, como nós.
Distração ínfima de uma vida efêmera.
Momento dividido, entorpece os sentidos
e toma como refém,
um coração, sem desdém,
pois amor,
além de pouco recitado,
é coisa rara,
para poetas
solitários.

Nenhum comentário:
Postar um comentário