quinta-feira, 24 de novembro de 2016

sábado, 19 de novembro de 2016

O mar foi. O mar ia.


O vento, sorrateiro amigo, nunca me abandonou.
Continua a vagar pela tua imensidão.
Permeia-te por dentro, onírico; sem saber por onde ir.
Tuas ondas, insolitamente perfeitas, ofuscam meu pensar, meu ser.
                              
Perco-me em ti.
No teu todo, tão inverso ao meu, não encontro defeitos.
Não há tristeza.
Mas o vento, por mais sonhador, não interfere nas tuas ondas.

Oh, sorriso beatífico! Deixe-me vibrar-te.
Deixe-me navegar na tua completa maestria.
Esnobe tua sutil melancolia, Mar.
Não me deixes partir sem agitar-te por inteira.

Não tenha pena de mim.
Não sou portador de pleno conhecimento,
sou o nada que lhe faz falta.
Sou o vazio que tu desejas.

Conheço-te, conquanto custe tempo, mas não sei quem tu és.
Tu és onda, lágrima e dor.
Tu és pérola perdida, jogada ao ardor dos litorais.
Tu és o riso, a brisa, o todo.

Oh, vento! Desculpe-me
Pus-te numa completa ilusão.
Joguei-te num abismo.
Perdi-te, infantilmente, em meio à perfeição.

Por que, Mar?
Faz-te perfeita, Mar.
Não esperes por nada: Torna-te quem tu és.
Contarei aos ventos, meus amigos, o quão poderosas tuas ondas são.

O Teu brilho, Mar, será eterno.
Escusar-te-ás se não fores boba.
Tu és tudo.
Tu és mar.

Não esqueças, por fim, da tua marca.
Faz-te a amar, Mar.
Eleva-se às montanhas, Vida.
Deixe que os pobres, sem amor, gritem as mazelas ao mundo.

Ferva.
Perca.
Grite.
Perceba.

Só espero, conquanto sonhador, que tu me faças aquele favor;
Favor meigo, sem medo de ser criticado;
Tua fonte, o verdadeiro culpado:
Teu sorriso.

O único problema, Mar,
é que tu sempre vagará perfeita...
Permanecerei alheio a tua ira.
Sou mazela e mágoa.

Tu, inóspita, continua a vagar.
Perdeu-se em si.
Não me espere, ilusão.
Não busco nada além de ti.

Peço ajuda,
mas tu não percebes que existo.
Eu morria, sorria, perdia.
E tu, Mar,
ia.

sexta-feira, 11 de novembro de 2016

Sem ser

Rene Magritté, Ideas, (*)



Morgadio solene, apedrejador do mundo contrário.
Compõe-se, de fato, erroneamente atado.
Perspicaz, não busca nada além de si.
Seja tudo! Ser, estrênuo, demasiado tolo.

Não notarás... A ciciante verdade, por mais alheia, sempre
chegará. Chegará! – Mas quem buscará entendê-la?
A linha é sempre mais tênue, mesmo na maior ode, para àqueles
cujas metas são rasas, neutras, calmas, infimamente inúteis.

O Discurso, uma completa verborragia, será aplaudido.
Mas, é claro, não tanto – A verdade, não há alguma verdade; só barulho.
Problemas. Gritos. Correria. Cansar-me-ei de tanta proficuidade desperdiçada.
Tantas inverdades, pomposas e cintilantes, enraizadas na mente do Ser.

Não há mais ser... O Caminho, no mais belo arcabouço existencialista, não existe.
Perdeu-se, vagaroso, em meio ao todo: O nada. Com a agrura a arrastar, o torpor reinará com
maestria. Pouco perfectível, permanecerei a aplaudir. Aplaudo, grito, exprimo um riso
hiperbólico de agonia e lamúria, e continuo despercebido.

Se eu continuar afável, compulsoriamente inserido, suponho que não serei flagrado.
Continuarei a esconder-me.
Não há verdade; mesmo errada, correta, perfeita, perdida, inóspita, não há erro: Só não há; só
esvazio, por mais inútil, a minha mente – indiscutivelmente inconsciente ­‑ no completo
vazio.

Não há recurso, o ser não é’ – Só reflete os impropérios proferidos.
A concupiscência reina, eternamente perfeita, em conjunto aos estúpidos.
Uma verdadeira orgia de dopamina... Ser perdido, ser o vazio, não seja isto. Não seja.
Simplesmente não perca o ser de si. Não há nada a perecer, isto é, além do ser, perecerei
eternamente –Pois não há nada para ser.  Sempre estarei sendo –Serei tudo o que não há para
ser. 

Só estarei ciente, inconsciente de minha ciência que não sei ser o Ser, que o vazio, por mais
sublime, é o que há 
para ser.