sábado, 19 de novembro de 2016

O mar foi. O mar ia.


O vento, sorrateiro amigo, nunca me abandonou.
Continua a vagar pela tua imensidão.
Permeia-te por dentro, onírico; sem saber por onde ir.
Tuas ondas, insolitamente perfeitas, ofuscam meu pensar, meu ser.
                              
Perco-me em ti.
No teu todo, tão inverso ao meu, não encontro defeitos.
Não há tristeza.
Mas o vento, por mais sonhador, não interfere nas tuas ondas.

Oh, sorriso beatífico! Deixe-me vibrar-te.
Deixe-me navegar na tua completa maestria.
Esnobe tua sutil melancolia, Mar.
Não me deixes partir sem agitar-te por inteira.

Não tenha pena de mim.
Não sou portador de pleno conhecimento,
sou o nada que lhe faz falta.
Sou o vazio que tu desejas.

Conheço-te, conquanto custe tempo, mas não sei quem tu és.
Tu és onda, lágrima e dor.
Tu és pérola perdida, jogada ao ardor dos litorais.
Tu és o riso, a brisa, o todo.

Oh, vento! Desculpe-me
Pus-te numa completa ilusão.
Joguei-te num abismo.
Perdi-te, infantilmente, em meio à perfeição.

Por que, Mar?
Faz-te perfeita, Mar.
Não esperes por nada: Torna-te quem tu és.
Contarei aos ventos, meus amigos, o quão poderosas tuas ondas são.

O Teu brilho, Mar, será eterno.
Escusar-te-ás se não fores boba.
Tu és tudo.
Tu és mar.

Não esqueças, por fim, da tua marca.
Faz-te a amar, Mar.
Eleva-se às montanhas, Vida.
Deixe que os pobres, sem amor, gritem as mazelas ao mundo.

Ferva.
Perca.
Grite.
Perceba.

Só espero, conquanto sonhador, que tu me faças aquele favor;
Favor meigo, sem medo de ser criticado;
Tua fonte, o verdadeiro culpado:
Teu sorriso.

O único problema, Mar,
é que tu sempre vagará perfeita...
Permanecerei alheio a tua ira.
Sou mazela e mágoa.

Tu, inóspita, continua a vagar.
Perdeu-se em si.
Não me espere, ilusão.
Não busco nada além de ti.

Peço ajuda,
mas tu não percebes que existo.
Eu morria, sorria, perdia.
E tu, Mar,
ia.

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